São Paulo Não É Sopa no terceiro álbum do Aláfia

Adriana Terra / December 13, 2016

Batemos um papo com o vocalista e produtor Eduardo Brechó enquanto a banda gravava seu terceiro álbum por aqui. Previsto para o início de 2017, o disco tem São Paulo -- seus bairros e histórias cotidianas -- como tema.

“Ih, fugimos totalmente da pergunta, mas calma aí que é assunto também!”, avisa Eduardo Brechó, produtor e vocalista do Aláfia, enquanto um papo sobre o terceiro álbum da banda viaja por caminhos que incluem Tim Maia, Kwick, rap romântico, pagode e Djavan. “A música preta, dependendo do tipo de estética, já é considerada cafona de cara”, aponta ele.

A crítica do músico a esse tipo de julgamento tem a ver com a forma como o Aláfia se coloca na cena, tendo a questão racial como ponto central de debate, especialmente no segundo álbum, “Corpura” (2015). Pouco mais de um ano e muitos shows após o trabalho, eles se preparam para colocar na rua “SP Não É Sopa”, disco que une as variadas camadas que originaram o Aláfia -- saraus, discos de funk, rap, candomblé -- para falar sobre São Paulo.

O álbum tem pré-lançamento nesta sexta-feira (16) às 18h no Vale do Anhangabaú, no centro da cidade, dentro do Ecosol Fest.

Formado por volta de 2010 na capital paulista, o Aláfia ('caminhos abertos' em iorubá) nasceu da reunião de amigos que Brechó, mais ligado ao universo do rap e da discotecagem, gostaria de produzir. Entre eles estavam os dois vocalistas com quem divide o palco hoje: Jairo Pereira, que conheceu no Sarau da Cooperifa, e Xênia França, apresentada por um colega do Museu Afro Brasil, onde o produtor trabalhava como educador. O grupo costumava se reunir semanalmente, junto ainda a MC, cantora e compositora Lurdez da Luz -- que nunca integrou, mas já colaborou com o Aláfia (vide "Ela é Favela" e "Punga").

“Eu estava trabalhando com a Lurdez num projeto que chamava Quebradas do Mundaréu. O ‘SP Não é Sopa’, na minha opinião, é resultado daquele começo, porque a gente ia fazer um disco sobre São Paulo. E aí ela ia em casa e ia também o Jairo e a Xênia, que eu queria fazer um disco de cada um deles, e começou esse fluxo de quarta-feira. Juntando essas pessoas que se conheciam e músicos que podiam somar, em vez de fazer algo separado pensamos em unir todo mundo num show cujo repertório fosse uma parte de cada”, conta o produtor.  

Esse show aconteceu em 2011 no Bar B (hoje Jazz B), casa no centro de São Paulo onde Brechó colocava som. “A gente fez temporada lá e fez muito shows já nesse ano que começou o Aláfia, e a partir daí fizemos o primeiro disco, depois veio o [edital] Natura Musical, e aí a banda já com uma identidade, uma cara mais própria. Porque o repertório do primeiro foi uma soma de composições que eu tinha, enquanto ‘Corpura’ foi uma coisa com um conceito mais amarrado. Tanto que o disco é uma música dentro da outra, não há espaço entre as músicas, é cada um tocando seu instrumento do começo ao fim. Esse aqui já volta mais ao menos a ser o que era o primeiro, que é o fazer de estúdio”, explica o músico.

No processo do fazer em estúdio, o produtor e vocalista acompanhou cada detalhe durante o mês de novembro por aqui. Além dos outros integrantes da big band -- que tem 12 músicos na sua formação --, trouxe poeta, mais baterista, guitarrista, DJ e baixista pra gravar, ficando sempre até o último horário do estúdio. Quando pergunto sobre como a música do Aláfia caminhou de “Corpura” para “SP Não É Sopa”, fala sobre seu estilo metódico e explica as mudanças que enxerga do segundo para este terceiro disco.

Da esq. para a dir., no alto: Eduardo Brechó (voz e guitarra), Pedro Izquierdo (percussão), Gabriel Catanzaro (baixo), Filipe Vedolin (bateria), Vinicius Chagas (saxofone), Xênia França (voz), Gil Duarte (trombone, flauta); abaixo: Fabio Leandro (teclado), Lucas Cirillo (gaita), Pipo Pegoraro (guitarra), Alysson Bruno (percussão) e Jairo Pereira (voz)

“Eu acho que está havendo uma ruptura estética no Aláfia com esse terceiro disco, porém não é uma ruptura, é um desdobramento natural. Que desde o princípio do Aláfia o candomblé foi muito importante. Eu sou de candomblé há muitos anos, o [percussionista] Alysson [Bruno] também, então eu sempre trouxe tanto os aspectos da visão de mundo do candomblé quanto dos temas que eu queria tratar, eu sempre separei dessa maneira: quais são os assuntos que são tratados no xirê? A guerra, o amor, a vingança, a caça…São assuntos míticos, que são relevantes e profundos pra todos o humanos. Isso foi um truque, a princípio, que é um truque que já tá em mim. Mas que a princípio eu fazia as coisas retroativas, tipo: o que eu preciso falar? Ah, então preciso de uma música que fale disso e daquilo”, explica.

“E quando o assunto é candomblé”, volta ele, “naturalmente a África vem à tona, e vem à tona a negritude. Porque independente da cor do ser humano que pratica a religião, que professa essa tradição, esse culto -- nós não chamamos de religião --, essa pessoa tem que saber como isso chegou ao Brasil, qual foi o terror e onde está o terror em tudo isso ainda hoje. Então tem todas essas questões que sempre foram ideológicas e estão embutidas na banda”.

Quem já viu um show do Aláfia sabe bem sobre esse posicionamento em palco, e como isso reflete de forma potente no público. “Não foi pra chegar fazendo diferente, foi nossa maneira de se sentir mais honesto. Já era antes do Aláfia da caminhada de cada um”, coloca o produtor.

“O primeiro disco toca nesses assuntos mas não é esse o recorte exatamente. Já o ‘Corpura’ é um disco de luta, é pra isso, ele tem duas páginas de agradecimentos porque é um disco de movimento, embebido de toda experiência que a gente teve de ir em sarau, passeata, sempre falando desses assuntos. Então a gente devolveu pra essas pessoas dos movimentos anti-racismo e a todos os outros aos quais estamos aliados o ‘Corpura’. Que nele o alicerce rítmico é o candomblé, a gente primeiro gravou os tambores e depois as bases”, conta Brechó.

E como o Aláfia chega, após ”Corpura”, a esse terceiro álbum? “E aí o ‘SP Não é Sopa’ é um disco para São Paulo no qual eu fiz questão de, no limite, não colocar candomblé. Digo no limite, porque faz parte do fazer música”, reflete. “Uma vez que a gente falou, né, não é religião, é tradição. Isso o jazz ensina muito: a transposição dos ritmos dos tambores para outros instrumentos. Tem esse filme do James Brown no qual ele diz que todos os instrumentos são tambor. Isso aí resume bem, porque não tá o candomblé ali ilustrativamente, mas tá a ancestralidade na vivência das pessoas. Mesmo na MPC que eu uso bastante a gente traz isso”.

Da Bela Vista à Brasilândia
“As cidades em si chamam crônicas, acho que a crônica personaliza esse ambiente sem rosto. Quando você fala de um lugar a partir de um personagem bem específico, tipo Wilson Batista, ‘Etelvina, acertei no milhar’. ‘Houve um comício em Mangueira, o cabo Laurindo falou…’, tá ligada? Cabo Laurindo, você já entende que ele foi pro front na guerra, que Getúlio mandou vários caras da Mangueira, que vários sambistas morreram, você entende a dimensão da cidade. O rap fez muito isso, ‘O homem na estrada recomeça sua vida’ na terceira pessoa, ‘Eu tô ouvindo alguém me chamar’ na primeira. Você sente a cidade pulsando, então acho que a crônica é uma veia boa”, reflete Brechó quando questionado sobre como o estilo está presente no álbum, para já lembrar de um dos sons. “Eu fiz uma crônica nesse disco que chama ‘Agogô de Cinco Bocas’, que é uma história verídica: um amigo me mandou buscar um agogô de cinco bocas pra ele, e não existia, claro, então virou uma fábula. Tem algumas [no álbum], mas essa é a mais crônica. Não sei se a que eu fiz pra Bela Vista, que chama ‘Saracura’, é exatamente uma crônica. A que a gente vai gravar hoje aqui é, ‘Ponto Final’, que é você procurando a pessoa em vários lugares. Tem muita coisa de procura no disco”.

Fábio Leandro durante gravação de "SP Não É Sopa"

Entre as participações, bastante gente envolvida, tanto quem nasceu em São Paulo quanto quem adotou a cidade -- como é boa parte do Aláfia (Brechó é de Ribeirão Preto, Jairo de Suzano, Xênia é baiana): a cantora Tássia Reis, o baterista João Parahyba, a dupla As Bahias e a Cozinha Mineira, DJ Nyack, a cantora Luiza Maita, o baixista Robinho Tavares, Marco Mattoli (Clube do Balanço), a cantora Anna Tréa, Fernando Ripol (Samba do Congo).

“A ideia inicial, que não consegui realizar totalmente, era dividir por bairros e chamar pessoas relacionadas àqueles lugares dos quais as músicas estavam falando. Tem ‘O Mano e a Mona’ que fala da Amaral Gurgel, com As Bahias. Tem ‘Saracura’ que fala da Bela Vista, com a Luísa Maita (filha do Amado Maita, que era da Bela Vista, e sobrinha do Marcelo, do Região Abissal). Tem ‘O Agogô de Cinco Bocas’ que fala da Brasilândia, com o Robinho Tavares que é de lá gravando o baixo. ‘São Paulo Não é Sopa’ é geral, é a apresentação do Blaxploitation”, diverte-se o produtor, enquanto repassa mentalmente os sons. “Tem ‘O Fluxo’, que é em homenagem a várias quebradas. Tem ‘Gentrificação’, que fala de muitos bairros e tem a ver com a Vila Madalena, com Pirituba. Depois ‘Liga as de 100’ que não é sobre nenhum bairro específico, que é tipo um trap com banda. Tem ‘Embuste’ que é o [gaitista Lucas] Cirillo que fez, sobre os Bandeirantes. Essa música a gente misturou com uma do Dugheto Shabazz, ‘Vamos pra Palmares’”, conta Brechó, que escreveu dez das doze faixas do álbum.

O tema da violência policial, já abordado em outros trabalhos, aparece como sample em faixa gravada com Nyack. “Tá um pouco denso esse momento, mas eu tomei a decisão de deixar. Isso é uma estética que eu aprendi no rap, esse momento notícia, esse momento não-arte. E deslocar também, né. Por mais escroto que seja, todas as pessoas reconhecem a voz do [apresentador] Marcelo Rezende, porque a indústria do medo é a que vende mais em São Paulo, é um negócio que gruda no ouvido, parece seu cotidiano -- infelizmente. E as coisas que a gente escolheu ali estão falando de manifestações, do jeito que é seletivo o combate a elas, e notícias de violência policial absurdas”, conta o produtor.

Gravado no Red Bull Studio São Paulo pelos engenheiros de som Rodrigo Funai e Alejandra Luciani, “SP Não É Sopa” sai no começo de 2017.

Fotos: Felipe Gabriel