Grupo baiano da década de 70 Arembepe se reúne após mais de 30 anos

Adriana Terra / November 28, 2016

Como um disco pode libertar histórias: um colecionador conheceu em Londres, por meio de uma coletânea, a banda baiana da década de 70 Arembepe. Fissurado pelo som -- já de volta ao Brasil e com um selo musical --, encontrou o grupo para reviver essa história.

“A gente era amigo desde criança, de adolescente. Jogava bola, ia assistir futebol na [Arena] Fonte Nova. E saía também com o violão, nas praias, onde tinha gente que pudesse ouvir uma música inédita a gente estava. Depois de entrarmos em festivais secundaristas, achamos que deveríamos nos apresentar em teatros, montar uma banda mesmo. E assim nasceu o Arembepe”, explica, com a fala calma, o cantor e compositor Carlos Lima.

Ao lado de Chico Evangelista, Kiko Tupinambá e Dinho Nascimento, Lima é parte do grupo surgido na década de 1970 em Salvador -- que teve formações maiores, mas cujo quarteto é a mais sólida e a que se reuniu recentemente no Red Bull Studio São Paulo para gravar num álbum o repertório que encantou muita gente, entre ela artistas como Gil, Caetano e Donato, em apresentações há cerca de quarenta anos.

Tendo descoberto o som do grupo quando vivia na Europa, por meio de uma coletânea do DJ britânico Cliffy (famoso por compilar música brasileira), o pesquisador Caio Beraldo resolveu, de volta ao Brasil, relançar os únicos compactos gravados nos anos 70 pelo Arembepe -- um pela Odeon, feito quando eles moraram no Rio, e outro pela Crazy, de São Paulo. Ambas reprensagens saíram em 2014 pelo selo Candonga, que Caio criou.

Da esq. para a dir., Chico, Lima, Dinho e Kiko | Foto: Felipe Gabriel

A história começa, mas não termina aí. “Um ano depois, consegui encontrar os integrantes por meio de um comentário num blog que resenhava os discos, o Kiko deixou um recado. Aí eu contatei ele, fizemos uma primeira reunião pra eu explicar tudo o que tinha acontecido -- porque hoje em dia você liga pra editora e pra gravadora que controla as obras, consegue as autorizações e prensa, você não precisa exatamente encontrar o artista. Trocamos uma ideia, nos encontramos algumas outras vezes, e o Kiko é meio que a biblioteca dos caras, ele tinha um monte de rolo de fita de shows e um dia ele trouxe isso. Começamos a ouvir tudo e aí eu conheci um repertório de dez músicas do Arembepe que ninguém conhecia, só quem foi nos shows deles nos anos 70. Esse material estava preso naquela época”, conta ele.

A fim de libertar esse material pro mundo, Caio e a banda estão envolvidos hoje no projeto de gravação de um álbum inédito e de um documentário contando a história do grupo pioneiro em muitos sentidos, mas ainda pouco conhecido.

Reggae, ‘dodói do suinge’ e momento hippie
Para entender um pouco mais do Arembepe, o grupo foi formado a partir dos então jovens compositores Chico Evangelista e Carlos Lima, reunindo músicos de estilos distintos, mas que tinham em comum as influências das sonoridades que circulavam pelas ruas de Salvador nos anos 1970: das músicas das festas de largo e dos candomblés até a Jovem Guarda, passando pelos sambas de roda e orquestras.

“Cada um tinha uma maneira de se vestir, a gente era muito estapafúrdio, cada um naquele auge do momento hippie”, conta Dinho Nascimento, que hoje vive em São Paulo, onde rege a Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene. O momento hippie citado por ele explica também o nome da banda, o mesmo da famosa comunidade em Camaçari.

Capa do compacto da Odeon com os músicos 

“Minha influência era muito da Jovem Guarda, eu curtia muito Beatles, Roberto Carlos, Os Vips. Que em Salvador só chegavam versões, por exemplo, de Beatles, através de Renato e Seus Blue Caps. E eu tocava em banda de baile também. Ouvia muito o Moreira da Silva e o Nat King Cole, e umas coisas inusitadas como Nelson Gonçalves, Teixeirinha”, conta Kiko.

“Eu sou o dodói do suingue, não vivo sem ele. Sem balanço não é a minha”, fala, abrindo um largo sorriso, Chico, que agora vive em Salvador, onde após o Arembepe seguiu carreira solo lançando um disco pioneiro do reggae brasileiro, “Bahia Jamaica” (1979).

“Eu sempre fui envolvido com cultura popular, minha mãe gostava muito de cantar samba de roda. E quando saía na rua via a capoeira, via os terreiros religiosos, igreja católica... É muito interessante isso no Arembepe, a gente sondava tudo isso, porque ao mesmo tempo que você estava passando e ouvia os sinos e procissões, você olhava no bairro em que nascia e tinha os toques dos tambores. E isso era muito vivo na Bahia, então isso virou música, virou cultura pra mim. Em 70 eu já participava de algumas ações das festas de largo, onde você passava a noite cantando. E via os meninos Chico e Lima nos festivais estudantis, o Kiko via na rua, cada um já fazia sua história. Vínhamos cada um de um bairro, isso é importante de falar, mas a gente sempre se encontrava porque Salvador era bem efervescente na rua”, conta Dinho.

“O Arembepe são essas personalidades quatro, uma diferente da outra”, resume Lima, que vive hoje na capital baiana, onde nos últimos anos trabalhou compondo para outros artistas.

Foi esse quarteto complementar que, após alguns shows de sucesso em Salvador e Fortaleza, decidiu tentar a sorte no Rio -- passagens compradas por um fã da banda, contatos no bolso.

“No sudeste a gente se tornou mais baiano”
“Pegamos o Itapemirim, avisei meus pais só na véspera. Eu tinha um trabalho de office-boy na Secretaria de Educação e estudava, mas sempre tive vontade de sair da Bahia para tentar a vida como artista. Tinha 19 anos na época”, conta Dinho.

Chegando ao Rio, o grupo viveu em pensão, casa de familiares, tudo enquanto tentava entrar no circuito musical. Para tocar no Teatro Tereza Raquel, que apresentava novos nomes a partir da meia noite, souberam que teriam de ter algo gravado. Foram parar na lendária Odeon.

“Fomos na Phillips, um cara ouviu a gente e disse: ‘aqui tem Gil, Caetano, já tem muito baiano. Vocês vão conversar com um cara chamado Roberto, atravessa aqui a Cinelândia’. Aí no outro dia pegamos o endereço e era a Odeon”, conta Dinho.

“[O produtor e músico] Renato Corrêa nos recebeu, ouviu o som e falou ‘vamos gravar isso hoje’. A gente tava pra gravar à noite e o João Donato estava lá, eles falaram ‘tem um cara que chegou da América e tá gravando, vocês não querem que ele faça um piano?’. E a gente nem conhecia o Donato e pensamos: ‘Pô, mas será que esse cara toca bem?’, hahaha”, diverte-se Kiko. “E firmamos uma amizade com ele, junto ao Wilson das Neves que fez a bateria”.

O compacto foi gravado com as músicas “Iaiá” e “Lá na Esquina” (ouça acima a reprensagem da Candonga). A temporada carioca incluiu ainda serem apresentados por Gal Costa no Teatro Opinião. Após cerca de um ano, vieram pra capital paulista.

“Todo mundo falava de São Paulo, e no fim de 74 viemos para cá, passamos uma semana de perrengue. Foi muito cruel porque como a gente é de Salvador, estamos acostumados com o aconchego das pessoas, e aqui em São Paulo o dinheiro acabou, a gente foi pedir um prato de comida e um cara olhou de cima a baixo e falou: ‘vai trabalhar que você come’. Aí saí e falei: ‘vamos voltar pra Salvador que essa cidade é estranha’”, conta Kiko, que apesar do episódio acabou se estabelecendo em São Paulo, onde atua hoje como produtor e empresário musical.

A dureza da cidade, de certa forma, os fez mais conscientes de sua origem. “Aqui no sudeste a gente se tornou mais baiano ainda, eu passei a enxergar mais o que é a Bahia do que quando estava lá. São tantas coisas, tantas religiões, e eu me sinto a mistura de todas elas. A partir do momento em que saí da Bahia, senti uma diferença de comportamento, costumes, então eu sou um baiano, e vim assistindo isso e me entendendo como baiano”, coloca Lima.

Mesmo com as dificuldades, conseguiram se estabelecer por um período. “A gente morava na Vila Madalena, eu adorava porque achava que ia encontrar o mar ali, aquelas ruas todas. Eu achava misterioso. E aí comecei a chamar todo mundo pra morar lá”, lembra Chico.

Em São Paulo, gravaram mais um compacto (com as músicas “Rosa Mulher” e “Afoxé Ponto de Oxossi”; ouça acima), cantaram “Odara” com canja de Caetano no lendário bar Lei Seca, na zona sul da cidade, apresentaram-se no Sesc Pompeia e estiveram nas primeiras experiências de Tom Zé fazendo música com objetos não convencionais.

“A gente continuou junto até 78, quando Chico saiu, mas tocamos ainda com ele [depois disso]. Ele fez o ‘Reggae da Independência’, que tocamos junto”, lembra Kiko da música que alavancou a carreira de Chico fora do grupo. Mesmo “desfalcado” por Chico, o Arembepe seguiu até 1982 incluindo outros músicos. De lá para cá, os integrantes se conversavam vez ou outra -- Kiko e Dinho mais, por viverem próximos em São Paulo. Mas nada de se reunir para tocar.

Foi por meio do convite de Caio que o encontro foi possível. “O garimpo do vinil liberta uma pá de histórias, ele não fica preso só nele, desenterra um monte de coisas, move um monte de coisas. Às vezes até eu me pergunto, o que a gente está fazendo com esse lance de vinil? Será que é só algo físico que as pessoas estão colecionando? Mas é isso que a Somatória do Barulho [selo 'mãe' do Candonga] tenta buscar, a gente fazer um lance físico é meio que garantir que a história vai estar de pé 40 anos. Porque se alguém não tivesse tido o capricho de congelar aquela noite no Sesc Pompeia em 76, nada disso estaria acontecendo”, aponta Caio, fazendo referência ao show do Arembepe cujo repertório vai dar origem ao disco que está sendo gravado agora.

Da esq. para a dir., Dinho, Lima, Kiko e Chico (sentado) | Foto: Felipe Gabriel

Entre as faixas, uma canção escrita por Gil. “Isso veio como carta embaixo da porta no nosso apartamento aqui em São Paulo. Eu falei: isso não é carta, é letra de música”, conta Chico.

“A gente está dando continuidade a algo que deve ser feito para preservar a história, porque tem muita coisa culturalmente brasileira dentro do Arembepe. Eles faziam essa insanidade de psicodelia, afoxé, reggae, samba de roda, misturavam isso tudo sem saber o nome das coisas. Mas a partir daí o Chico Evangelista foi um pioneiro do reggae mesmo com o disco ‘Bahia-Jamaica’. Então eles levaram a essência deles pra outros lugares. O Dinho também tem um trabalho fodaço na Orquestra de Berimbaus. Eles levaram o trabalho deles pra outros cantos”, comenta Caio. "O Arembepe é precursor de diversas coisas, mas não no sentido de 'inventei, isso é meu', e sim no sentido de 'isso é o que a gente faz na nossa terra há milianos', uma certa simplicidade mesmo. O lance de percuteria, os caras sempre fizeram isso. Amplificar berimbau, são coisas que ninguém fazia. Então eles têm essa coisa visceral, tenho certeza que influenciaram indiretamente uma galera".

Tanto disco quanto documentário têm previsão de lançamento para a segunda metade de 2017.