Faixa a faixa: Liniker e os Caramelows - "Remonta"

Vinicius Felix / RedBull.com/Music / September 17, 2016

Liniker e Renata Éssis contam os segredos de cada música do primeiro álbum do grupo.

“Remonta”, o primeiro álbum de Liniker e os Caramelows, está na rua! Quase um ano depois do cantor e sua banda encantarem alguns bons milhares de corações com uma série de vídeos no Facebook e um EP gravado em um clima praticamente caseiro, eles soltam seu primeiro álbum completo de estúdio.

Gravado no Red Bull Studios de São Paulo com produção de Marcio Arantes, “Remonta” apresenta as três faixas do EP “Cru” em novos arranjos e mais dez faixas inéditas, algumas conhecidas de quem viu a primeira leva de shows da trupe.

“Coloquei no disco o que precisava dizer nesses anos e não conseguia colocar pra fora. A banda tá tocando do jeito que sempre quis tocar”, conta Liniker, que trabalhou nas músicas do álbum por cinco anos, em um primeiro momento sozinho e no último um ano e meio com os Caramelows. “Os sentimentos que acontecem nesse disco estão ali porque eles foram vividos de verdade”.

O show de estreia de "Remonta" será dentro do Festival Contato, em São Carlos, já neste sábado (17). A estreia em São Paulo está marcada para os dias 1º e 2 de outubro no Auditório Ibirapuera.

Para saber mais sobres os detalhes das letras, arranjos e participações de cada faixa de “Remonta”, conversamos com Liniker e a backing vocal do Caramelows, Renata Éssis. Dê play no disco enquanto lê o papo.

1 – “Intro”

Liniker: A intro é um lance de trazer o clima dos shows para o disco, esse clima meio épico que tem no "Remonta", esse clima intenso. Nos primeiros shows tinha aquele primeiro momento de entrar em silêncio no palco. A introdução é isso, como se fosse toda a construção do "Remonta" antes de acontecer e aí depois o disso o disco começa.

2 – “Remonta”

Liniker: "Remonta" é um processo todo. Esse disco eu estou escrevendo faz cinco anos e eu percebo que a maioria das minha composições, cada uma delas, parece que é para chegar nesse lugar onde preciso remontar minhas coisas, preciso remontar a minha vida para viver tranquilo e viver forte. "Remonta" vem neste lugar de ser o epílogo da história, sabe? As outras histórias só acontecem para chegar naquele determinado ponto. A gravação ganhou uma orquestra e tem o Badé, um percussionista maravilhoso que fez um trabalho muito bonito.

3 – “Caeu”

Liniker: Das três músicas já lançadas, "Caeu" não teve muita alteração. A gente só colocou alguns instrumentos nela que a gente não conseguia fazer antes ao vivo, tipo ter duas guitarras com só um guitarrista na banda.

Renata Éssis: A gente sempre teve "Caeu" muito forte na nossa cabeça como arranjo, era a que tava mais fechada e acabou sendo a que menos mudou para o álbum.

4 – “Prendedor de Varal”

Liniker: Essa já tinha no show e tem uma história engraçada. A gente tocava ela em uma versão meio bossa nova e trocamos totalmente o arranjo em uma passagem de som e ela ficou do jeito que a gente queria que ela ficasse, que é essa coisa groovada, funkeada, pra dançar mesmo. Quem participa com a gente nela é a Xênia França, que é vocalista do Aláfia, e do Danilo Moura, que é percussionista d'As Bahias e a Cozinha Mineira.
A letra fala sobre eu não ficar mais esperando a pessoa chegar pra mim depois de ter me enrolado tantas vezes e achar que eu poderia me envolver com ela de novo como se eu tivesse sempre à mercê do tempo dela. A música vem pra dizer que nada sairia do lugar se a pessoa não se engajasse.

5 – “Tua”

Liniker: "Tua" tem Tássia Reis nos backing vocals junto com Renata e é uma música que eu fiz em homenagem a uma amiga minha chamada Suzane Rossan. No período que eu comecei a escrever ela também tinha um tumblr e escrevia umas coisas e aquilo batia muito com as coisas que eu sentia e escrevia, aí eu disse pra ela que eu ia homenagear ela em música e escrevi "Tua" pra ela.

Renata: O arranjo dela no começo a gente brincava que era um blues de boteco, agora a gente acha que ela saiu disso por conta do Márcio Arantes, produtor do disco, ele instigou muito a gente para fazer mudanças e sair da zona de conforto. Aí ela virou um blues mais robusto, com um cara meio de 007. Ganhou um tom de diamante.

Liniker: Ficou uma coisa meio Louis Armstrong, meio assim.

6 – “Lina X”

Liniker: Ela homenageia outra amiga minha, a Linn da Quebrada. A gente estudava na mesma escola em Santo André, moramos juntas, ela é uma pessoa muito influente na minha vida. Ela é uma das pessoas que mais me trouxe essa coisa de quebrar as coisas que eu não acreditava dentro de mim e me colocar pra fora.

Renata: Foi uma música que já tinha uma pegada alto astral e com o Márcio escolhendo novos instrumento cirurgicamente para ela deixou a música bem pra cima, bem dançante.

7 – “Louise du Brésil”

Liniker: Das que estavam no EP, essa foi uma das que a gente mais quis mexer. Ela ficou super dançante, super pra frente, com um groove maravilhoso. Ela também ganhou a participação do Thiago França, saxofonista do Metá Metá, e do Badé.

8 – “Sem Nome, mas com Endereço”

Renata: Ela fala sobre aquele momento que a gente tá na relação e tá realmente pleno e amando e se sentindo parte da pessoa, fala sobre esse tipo de momento.

Liniker: Ela e "Remonta" são músicas que foram escritas para a mesma pessoa. "Remonta" tem disso de mostrar esses amores em várias fases.

Renata: E ela tem participação do Marcelo Jeneci tocando piano e sanfona.

9 – “Você fez Merda”

Renata: A gente vai lá, faz tudo para o cara gostar da gente, tá aberta, disponível, o cara só faz merda. Aí quando a gente tá feliz da vida, vivendo, andando pela cidade, ele quer voltar pedindo desculpa? Não, meu amor, você fez merda!

Liniker: É isso! Passa longe.

10 – “Funzy”

Renata: É a faixa instrumental do álbum. Ela veio porque a partir de um momento começamos a fazer um som enquanto a banda era apresentada no shows. No estúdio, sentamos com o Márcio e começamos a fazer algo a partir daquela base dos shows e fomos modificando até chegar no "Funzy".

Liniker: Essa música também é pra afirmar que a banda tá ali. Tem muito lance de achar que só de Liniker é feita a banda. Muito pelo contrário. Isso tudo só acontece porque a gente trampa junto, esse trabalho não é uma coisa que só eu tô movimentando. Por mais que eu tenha escrito todas as músicas, é um trabalho que estamos construindo junto. A Liniker vai cantar no disco, mas os Caramelows também tão tocando, sabe?

Renata: E é interessante porque todo mundo pergunta qual é o gênero que a gente toca e não tem um específico que a gente se encaixe muito bem. Internamente a gente chama, e agora todo mundo vai saber, de Funzy. A gente toca o Funzy.

11 – “BoxOkê”

Liniker: Aqui tem a participação da Tássia Reis e do Aeromoças e Tenistas Russas. Com a Tássia comecei a conversar logo que eu lancei o EP ano passado. Eu já tinha ouvido o EP dela, já era fã, as músicas dela já eram toque do meu celular e a gente começou a conversar pelo Facebook trocando muita coisa, música, referência. Lembro que falava muito pra ela como eu tava me sentindo com todo o lançamento rápido que a gente teve, esse estouro rápido. E em uma dessas conversas a gente começou a falar de processo criativo das nossas letras, as duas compositoras falando da relação que têm com a água e a questão do empoderamento, a questão de afirmar a nossa negritude cada vez mais, falar da resistência das mulheres negras, das bichas pretas, das travestis, das trans, de todas as minorias. “BoxOkê” veio nesse lugar de ser uma música de empoderamento que fala da gente se sentir maravilhosa cada vez mais. Escrevemos essa música inteira no Facebook em um chat. Isso foi dezembro do ano passado e a gente foi se encontrar só no outro ano, em janeiro, quando a Tássia foi para Araraquara e aí foi um encontro muito providencial. Tudo aconteceu ali.

Renata: Os meninos do Aeromoças já tinham falado com a Tássia e eram amigos de muito tempo do pessoal da banda e acabou que juntos as duas bandas amigas com duas vocalistas que viraram amigas e criou toda essa troca.

12 – “Zero”

Liniker: "Zero" no disco ficou uma coisa bem envolvente, a outra versão já tinha aquela cadência bem romântica, mas ela foi para outro lugar no disco, uma coisa diferente. Esse lugar da mudança foi um lugar que a gente quis assumir mesmo no disco pra mostrar que o nosso trabalho é isso, só acontece porque está em movimento. Se a gente acha importante mudar o arranjo de uma música, vamos mudar, sabe? Esse lance de abrir mão do apego e deixar o trabalho no lugar onde ele vai ter movimento, onde a gente vai experimentar outras coisas.
E é muito bonito ver nos shows a relação que as pessoas têm com essa música.

13 – “Ralador de Pia”

Renata: Além de tudo que ela fala sentimentalmente, ela tem uma coisa que a gente gosta muito de ser na gente, tem essa carga dramática.

Liniker: Acho que nem é que a gente gosta tanto, a gente é de teatro, eu e a Renata estudamos teatro, a gente tem essa cenicidade dentro da gente.

Renata: Na verdade, todas as músicas tem esse toque de teatro dentro delas, só o que a gente botou mais no "Ralador de Pia". Ela mostra um sofrimento, mas ao mesmo tempo com um outra perspectiva no final. Ela não é uma música triste, ela é esperançosa quando você pensa nela como pessoa que ama. E convidamos para cantar essa música com a gente a Tulipa Ruiz e a dupla d’As Bahias e a Cozinha Mineira, Raquel Virgínia e Assucena Assucena.

Liniker: Aconteceu dela ser a última do álbum, não foi uma coisa de tipo "guardar o tesouro", como o álbum todo, ela tem a mesma importância do que cada música.