Exclusivo: ouça três faixas de "O Corpo de Dentro", de Lourenço Rebetez

Adriana Terra / June 01, 2016

Com produção de Arto Lindsay e participação de Gabi Guedes (Orkestra Rumpilezz), estreia do guitarrista paulistano une composições jazzísticas ao universo percussivo brasileiro.

"Meu fascínio pelo jazz vem da adolescência, e acho que foi principalmente sob a ótica desse gênero que me desenvolvi musicalmente. Ao mesmo tempo, essa paixão nunca veio em detrimento de outros interesses musicais. Provavelmente ouvi 'A Love Supreme' (John Coltrane) tanto quanto 'Voodoo' (D'Angelo), 'Outras Palavras' (Caetano Veloso), 'Coisas' (Moacir Santos) ou 'Alfagamabetizado' (Carlinhos Brown)", conta o guitarrista Lourenço Rebetez, que lança nos próximos dias seu álbum de estreia solo, "O Corpo de Dentro".

O interesse tanto pelo jazz -- seja mais clássico ou mais quebrado, "pós-hip hop" -- quanto pela música brasileira percussiva reflete a formação de Lourenço, que é líder da banda Rádio Gana ao lado da cantora baiana Xênia França (Aláfia). O músico estudou guitarra e composição em jazz na Berklee College of Music (EUA), ritmos afro-brasileiros e composição popular com Letieres Leite, além de piano, percussão brasileira e composição erudita.

Para dar vida ao álbum que começou a compor por volta de 2009, ele reuniu um time de colegas instrumentistas: um trio de jazz -- com baixo acústico, piano e bateria --, seis sopros e quatro percussionistas, além da guitarra, gravada por ele. Lourenço quem escreveu as dez faixas que compõem o disco, mas houve espaço para os músicos, como o mestre Gabi Guedes, líder da percussão da Orkestra Rumpilezz, contribuírem. Quem assina a produção é Arto Lindsay (leia a entrevista com Lourenço e Arto, feita durante o processo de gravação no Red Bull Studios São Paulo, em 2015).

"Ao invés de um jazzista, optei por convidar o Arto. Nas nossas conversas de pré-produção, os assuntos eram intermináveis, porque amávamos não só Miles com Gil Evans, mas também assistir a saída do Ilê Aiyê do Curuzu no carnaval, e os discos do Kendrick Lamar. O que quero dizer é que era óbvio que iríamos querer experimentar misturas com todas essas coisas que amamos, mas isso poderia ser uma grande utopia, não fossem todas essas expressões umbilicalmente ligadas, evidentemente, por sua matriz na música negra", reflete o guitarrista.

Ouça então com exclusividade três faixas do disco, que sai oficialmente no dia 7 de junho, e leia abaixo um papo que batemos com Lourenço.

Você fala de uma liga entre uma maneira de tocar jazz mais quebrada com a percussão afro-brasileira, o "toque dos atabaques baianos". Como foi seu caminho musical por essas vertentes da música instrumental, quando essa conexão entre elas se tornou mais visível pra você e como isso guiou a produção desse álbum?

Meu fascínio pelo jazz vem da adolescência, e acho que foi principalmente sob a ótica desse gênero que me desenvolvi musicalmente. Me encantava a excelência dos jazzistas, a devoção que tinham pela prática instrumental e a potência que um grupo de músicos podia criar espontaneamente numa noite inspirada.

Mas ao mesmo tempo, essa paixão nunca veio em detrimento de outros interesses musicais. Eu provavelmente ouvi "A Love Supreme" (John Coltrane) tanto quanto "Voodoo" (D'Angelo), "Outras Palavras" (Caetano Veloso), "Coisas" (Moacir Santos) ou "Alfagamabetizado" (Carlinhos Brown). Quer dizer, acho que essa “liga” que você diz, vem da genuína paixão por todos esses sons.

Por outro lado, no disco, isso foi feito de caso pensado, de certa maneira. Eu sabia que este disco seria um disco “jazz”, em linhas gerais, que as composições eram jazzísticas etc.. Daí, pra começar, ao invés de ter um jazzista como produtor musical, optei por convidar o Arto, um cara com um background aparentemente oposto ao meu. Uma amiga nossa, quando soube que ele iria produzir meu disco, disse: “mas o Arto não é o anti-jazz!?”. Ele na verdade adora jazz, mas de fato não seria a escolha óbvia. E por isso mesmo que eu quis convidá-lo e acho que foi por isso também que ele se entusiasmou em aceitar o convite. Nas nossas conversas de pré-produção, os assuntos eram intermináveis, porque amávamos não só Miles com Gil Evans, mas também assistir a saída do Ilê Aiyê do Curuzu no carnaval, e os discos do Kendrick Lamar. O que quero dizer é que era óbvio que iríamos querer experimentar misturas com todas essas coisas que amamos. Mas tudo isso poderia ser uma grande utopia, não fossem todas essas expressões umbilicalmente ligadas, evidentemente, por sua matriz na música negra, de origem africana.

Arto Lindsay e Lourenço durante as gravações

Mas bem, em resumo, quando procurei Arto, eu já tinha a ideia de fazer um disco de composições autorais, fortemente percussivo, físico, de corpo, com timbaus, atabaques e surdos virados, ao lado de arranjos para sopros e uma maneira “pós-hip hop” de tocar jazz. A partir desse pressuposto, a participação dele foi importantíssima pra amadurecer isso tudo e sobretudo me dar confiança nas minhas ideias.

Você cita Letieres Leite como uma influência pra enxergar de forma composicional os ritmos, utilizando-os como fontes pra canções originais. Queria que você comentasse um pouco a importância da composição (e desse olhar) no seu processo.

Por ter ascendência baiana dos dois lados da família, e frequentar muito Salvador durante a infância e adolescência, sempre tive uma certa ambientação com o que Letieres chama de “universo percussivo baiano”. Inclui-se aí não só os ritmos que ao longo do tempo foram mais integrados pela mpb -- o samba,  o samba reggae, e até mesmo o ijexá -- mas também um riquíssimo acervo de ritmos ligados, por um lado, às danças rituais dos terreiros de candomblé e, por outro, aos blocos afro da Bahia. Bom, se eu já me encantava com eles há tempos, foi Letieres quem me abriu o olhar para como esses ritmos ancestrais poderiam servir como matéria prima para uma criação moderna, contemporânea, exuberante ritmicamente e intrinsecamente brasileira. A “melodia” do tambor mais grave pode virar uma linha de baixo. O timbre dos aguidavis estalando na pele do atabaque pode inspirar uma articulação do naipe de saxofones. A clave tocada pelo agogô pode guiar a divisão da melodia, e assim por diante.

A banda durante as gravações em 2015. Foto: Pedro Bonacina e Renata Terepins

Gabi Guedes, da Orkestra Rumpilezz, participa do disco. Como foi essa parceria, ele toca em todas as faixas?

Foi uma honra enorme ter Gabi gravando conosco. Tocou em nove das dez faixas. Ele chegou no projeto através de Arto, com quem já havia trabalhado junto muitas vezes. Gabi é um dos maiores percussionistas da Bahia, além de carregar consigo a ancestralidade de quem nasceu e se formou Ogã no Terreiro do Gantois de Mãe Menininha. Ou seja, é uma autoridade musical que eu respeito e reverencio imensamente. Mas além disso é uma pessoa iluminada, alto astral, de sorriso fácil e cabeça aberta, afim de compartilhar, criar junto, enfim... foi uma honra.  Digo isso dele e também dos outros dois percussionistas que participaram das gravações, Ícaro Sá e Iuri Passos, ambos geniais e também fundamentais no clima bom e nos grooves que rolaram nas gravações.

A arte da capa é de Victor Leguy

E quanto aos outros músicos, como a banda foi sendo formada?

Os músicos na maioria são da minha geração, amigos e colegas que admiro muito. A base da banda já havia sido formada uns seis meses antes da gravação, num show que fizemos ao lado do Chico Pinheiro Quarteto, abrindo para a baixista/cantora americana Esperanza Spalding. Naquela ocasião, juntei sopros (Maycon Mesquita, Bruno Belasco, Jaziel Gomes, Cássio Ferreira, Raphael Ferreira e Zafe Costa) e percussão (Vitor Cabral) ao quarteto do Chico, que já incluía o baixista Bruno Migotto, que acabou também gravando o disco. Enfim, ali achei que tínhamos juntado um time excelente, virtuoso e sensível. A partir daí comecei a pensar em quem poderia tirá-los da zona de conforto. Comecei a conversar com Arto no primeiro semestre de 2015, como disse antes, já com uma boa ideia do que eu queria fazer.

Por fim, quando serão os shows do disco?

Estamos trabalhando para fazer um lançamento muito especial desse disco. É um pouco complexo porque precisamos de uma certa estrutura para fazer o show com a banda completa, que é o que queremos. Mas muito em breve teremos as datas agendadas.