Branko vem ao Brasil lançar Atlas, seu novo álbum

Isabela Talamini / August 26, 2015

Batemos um papo com produtor sobre seu primeiro disco, a nova escola do funk e outros ritmos globais

O português Branko (nome artístico de João Barbosa), membro da banda Buraka Som Sistema e fundador do selo Enchufada, vem ao Brasil no dia 04 de setembro para lançar seu primeiro álbum solo. Misturando tendências musicais de vários cantos do mundo, "Atlas" é um reflexo de cenas periféricas em ascenção. Além do funkeiro MC Bin Laden e dos cariocas do Marginal Men, há também participação com o rapper Don Cesão, que canta em uma faixa ao lado do nova iorquino Mr. MFN eXquire.

O lançamento de Atlas vai rolar em São Paulo, em uma edição especial do Boiler Room em parceria com a Red Bull Music Academy. O line up conta com ninguém menos que MC Bin Laden, MC 2K, Marginal Men e Viní. Confira nosso papo com João abaixo, explicando melhor sobre seu interesse na nova cena do funk e o processo por trás do disco.

Ficamos sabendo essa semana que o Buraka vai acabar. É sério isso?

Nós sentimos que estamos precisando de mais tempo para trabalhar sem ter a banda como prioridade. Como a banda vai fazer dez anos em 2016, vamos fazer uma turnê em comemoração no início do ano. Depois dessa turnê decidimos fazer um intervalo por tempo indeterminado, não sabemos ainda por quanto tempo.

O disco foi produzido em várias etapas, em cidades diferentes, certo? Isso foi uma parada que aconteceu naturalmente (considerando que você sempre produziu um estilo de global music) ou foi algo pensado?

A ideia de visitar várias cidades foi natural, minha personalidade musical acaba provocando isso mesmo. Foram várias cidades, várias colaborações. Eu sabia que, ao fazer um disco, eu precisava criar um conceito que incluiria visitar as cidades que na minha opinião são osmelting pots culturais mais interessantes do planeta. Começamos por uma semana em Amsterdam, uma em São Paulo, uma em Cidade do Cabo, uma em Nova York e, por último, Lisboa. Sinceramente, essas são as cinco cidades que moldam muito minha forma de ver a música e que faziam sentido eu estar presente, conhecer produtores locais e colaborar com pessoas. Precisava conhecer, viver a cidade e fazer com que tudo isso influenciasse na criação das músicas do álbum. Obviamente, depois de colaborar com um monte de gente, eu tinha que chegar a uma conclusão de arranjar uma “cola”, algo que juntasse todas as peças do quebra-cabeça, que desse sentido para todas as músicas e colaborações. Acho que em geral captou bem a ideia, no fundo esse conceito de música pra dançar, música eletrônica com um certo sabor geográfico, cultural, já era um pouco do que eu sempre fiz com o Buraka, com a minha gravadora — pra mim isso foi só uma continuidade desse trabalho, só que em outra direção.

"Eventually" é uma mistura de afro-house, essa última é um funk estilo São Paulo. O que mais a gente pode esperar ouvir no álbum?

Tem muitos gêneros. Toda minha pesquisa musical passa por encontrar artistas e gêneros novos, que sejam uma mini revolução local, e tentar olhar pra isso de uma forma global. Quando cheguei na África do Sul, por exemplo, fiquei conhecendo um gênero chamado gqomque é como se fosse uma evolução do que já existia ali, mas com pianos e umas minas cantando em cima. São novos sons que os jovens de 16 a 18 anos estão fazendo, é uma versão quase industrial, sem ter um 4x4 marcado. Eu conheci alguns produtores e sem dúvida foi um tipo de sonoridade que depois acabou entrando em vários momentos do disco.

Eu sempre fui uma pessoa mais focada no futuro do que no passado. O que é novo, o que ainda vai acontecer, me interessa mais. Esse é o real o desafio, tentar antecipar a história um bocadinho, tentar ir em busca de algo diferente.

Nessas cinco viagens a minha forma de olhar e criar música consistiu em agarrar todos esses gêneros e criar uma espécie de biblioteca dentro do meu cérebro para depois recorrer aos diversos truques de produção que a música precisa. No fundo, toda essa música vive muito de DJ sets e de turnês, não viram canções num formato normal. Uma coisa que eu tento fazer é usar essas cenas eletrónicas locais do mundo todo e tentar criar canções com elas.

Você também acabou trabalhando mais com pessoas mais novas, de cenas independentes que estão emergindo.

Eu sempre fui uma pessoa mais focada no futuro do que no passado. O que é novo, o que ainda vai acontecer, me interessa mais. Esse é o real o desafio, tentar antecipar a história um bocadinho, tentar ir em busca de algo diferente. Sobre o funk, uma coisa que pra mim ficou claro quando eu comecei de um ano pra cá a consumir essas novas músicas, foi que o ritmo ganhou uma personalidade completamente nova. Isso começou quando ele começou a ser levado para um bpm mais lento, como a rasteirinha, como o MC Tipock com “Quero Bunda”, que marcaram já uma identidade nova no funk, sem o loop do tamborzão, etc. Passei também a acompanhar a cena de São Paulo. Quando conheci a KL Produtora e todos seus artistas foi quando percebi que havia um embalo funk versão 2.0 e que eu tinha que ir pra aí ver o que estava acontecendo. Uma das razões disso acredito que tenha sido que o funk saiu do Rio e se espalhou pra outros lugares do Brasil, que acabaram criando sua própria cena e sua própria identidade. Quando me contaram que o DJ R7 era de Curitiba fiquei um bocado surpreendido.

O que mais te chamou atenção nessa nova escola do baile funk? O que você acha sobre a música dos garotos da KL, por exemplo, ter ecoado em vários cantos do mundo como no set da Bjork, do L-Vis 1990 e vários outros DJs de fora?

Eu acho que é super interessante e no fundo a única coisa que eu lamento é que talvez não seja possível, dessa maneira que está sendo feita, haver um interesse real da indústria musical em agarrar esses fenômenos e transportá-los pra onde há uma saída maior. Eles ficam reduzidos a um set da Bjork em um clube underground do Brooklyn.

A música é única e exclusivamente um reflexo da cidade e dos jovens que vivem ali. É um impulso super automático de abrir o computador e fazer música, lidar com um programa qualquer crakeado, baixado da internet.

O que eu gostaria mesmo era que a Bjork, em vez de ter só tocado a música no set, tivesse também postado em algum lugar o link pra a música do MC Brinquedo que ela tocou. Porque se não, na verdade não faz muito sentido o trabalho todo que está sendo feito. Não sei, acho que isso tudo não deixa de ser uma confirmação de que está a gerar interesse suficiente no mundo inteiro, capaz de influênciar outros formatos de música, chegar em outras audiências.

E você vê algum potencial nessa nova cena? Será que há uma possibilidade dela atingir o patamar internacional que o funk dos anos 2000 conseguiu atingir?

Eu pessoalmente acho que há a possibilidade de ir até mais longe. Pra mim não tem muito a ver com o lado de o que os MCs estão a fazer e sim com os produtores. Acho que em 2012, ou quando teve a primeira onda de baile funk, o que estava acontecendo era que a parte instrumental nem sempre era tão interessante. Era sempre igual, tinha quatro ou cinco variações de instrumentos mas basicamente continuava a ser o mesmo ritmo de miami bass com o loop do tamborzão em cima. Obviamente que isso pra mim, enquanto produtor, enquanto DJ, faz com que essa primeira escola de funk tenha um prazo de validade — uma hora vou me fartar de ouvir a mesma coisa. Eu no caso entendo a língua, mas alguém que não entende nem sequer percebe a diferença entre um tema e outro, está ouvindo muito mais a produção e o loop do que propriamente o verso. Acho que a partir do momento que instrumental começa a ganhar identidades novas, fica mais fácil encaixá-las em sets, esteja o DJ misturando trap ou qualquer outra coisa. Acho que é só uma questão de pegar mesmo, de passar essa ideia de que o funk está em renovação e que isso é relevante para o mundo inteiro.

Da última vez que você veio, a galera comentou que você colou em alguns shows, entrou em contato com artistas e acabou fazendo umas filmagens. Você pretende juntá-las em um documentário?

A ideia é montar uma web series de cinco episódios, em parceria com a Red Bull Music Academy, que serão lançados nos dias anteriores ao lançamento do disco — que vai acontecer no Boiler Room, com live streaming. Cada episódio conta a história de uma cidade. O que se tentou fazer foi ir um pouco além do conceito do behind the scenes, do estúdio e tentar ir a um conceito de travel show no estilo Anthony Bourdain, experimentando as comidas tradicionais, saindo à noite, ficando bêbado, enfim, viver a cidade de forma intensa. Acho que é relevante ver essa relação das experiências de cada cidade com as músicas.

De certa forma, o estilo de vida e as características do local influenciam muito na música criada ali, não é?

Completamente. A música é única e exclusivamente um reflexo da cidade e dos jovens que vivem ali. É um impulso super automático de abrir o computador e fazer música, lidar com um programa qualquer crakeado, baixado da internet. E, querendo ou não, esse é o estilo de criar música que eu me identifico e sempre tentei representar.

Você tem já uma relação com a Red Bull Music Academy. Como rolou isso? Por que você escolheu lançar o álbum no Boiler Room em São Paulo?

Minha relação com a Red Bull Music Academy vem desde 2002, quando eu fui participante na academia. Foi inclusive exatamente o ano que aconteceu em São Paulo. A partir dali, continuei trabalhando com eles, fizemos uma palestra com o Buraka há algum tempo, participei do studio team (que são alguns produtores escolhidos pra ajudar os participantes em qualquer dificuldades e dúvidas que possam surgir no estúdio). Tenho uma relação muito ativa com a Music Academy. Escolhi São Paulo porque acho que faz sentido, pela cena musical daí ter influenciado bastante no meu disco. Quero ajudar a expor essa cena para o mundo inteiro, pelo stream do Boiler Room.