Baixe o primeiro álbum da Space Charanga do Thiago França

August 04, 2015

O músico liberou para download gratuito seu novo disco, "R.A.N.", e conversou com a gente sobre o trabalho, suas multifacetas musicais e o rolê independente

Gravado em apenas um dia, R.A.N. - rhythm and noise - é o primeiro álbum do Space Charanga, grupo liderado pelo saxofonista mineiro Thiago França. O projeto é uma espécie de alter-ego da carnavalesca Espetacular Charanga, que ganhou até bloco de rua no último carnaval.

França apresenta sua charanga em uma versão mais livre, guiada pelo improviso, com arranjos mais soltos e temas obscuros. Completam a banda: Marcelo Cabral (baixo acústico), Anderson Quevedo (sax barítono e percussão), Amilcar Rodrigues (trompete, flughel), Allan Abaddia (trombone e percussão) e Sergio Machado (bateria).

Com fortes influências do jazz dos anos 60, o sexteto tem composições bem marcantes e a sonoridade de ícones como Sun Ra, Ornette Coleman e John Coltrane, além dos sotaques e batuques brasileiros, inspirados na obra de Moacir Santos, Maestro José Prates e cantos de rituais afro-brasileiros. Batemos um papo com o músico sobre o disco, suas multifacetas musicais e o cenário da música independente no Brasil:

Como nasceu a Space charanga?

A Space é um desdobramento da "Espetacular Charanga do França", que é um projeto mais carnavalesco e que tem a mesma formação dos sopros. Eu queria usar essa mesma metaleira em um contexto mais solto, mais improvisado e para o repertório que eu estava imaginando. Achei que precisava ter o Marcelo Cabral (baixo acústico) e o Sergio Machado (bateria) que entendem bem essa linguagem. As Charangas são aqueles grupos de percussão e sopro que tocam em estádio de futebol. Cresci indo ao Mineirão ver o Galo e ouvir a charanga do Julio, que mesmo tendo um repertório manjado pra animar os jogos, era executado com tanta força que sempre me fascinava. O "Space" do nome é uma homenagem ao Sun Ra, grande influência para mim. Pesquiso bastante a obra dele e acho que tem um pouco do nonsense e da psicodelia da música dele no nosso som.

Pode contar um pouco do processo criativo do álbum? E quanto a esta caractéristica do grupo de ser mais guiado pelo improviso, como foi para gravá-lo?

Como eu tenho muitos projetos, o jeito de dar identidade para eles é compor pensando na formação. As músicas não migram muito de uma banda para outra. As desse disco saíram bem rápido porque procurei compor a maioria delas de uma forma simples: bem aberta aos improvisos, que os músicos entendessem rápido e não dependessem muito das partituras no palco para os arranjos poderem ser mais elásticos, ter mais criação na hora. "Conta" é uma bem cabeçuda, vai na contramão, e o motivo do nome é porque a gente tem que ficar fazendo conta pra tocar. A composição inteira é um palíndromo, ou seja, é igual de trás pra frente. "Moacíria" é uma homenagem ao Moacir Santos, outra grande influência, e foi composta em cima duma batida chamada Opanijé, dedicada ao orixá Obaluaê. A única parceria do disco é "Fakechá", com o Marcelo Cabral e o Daniel Bozzio. Essa música apareceu durante as gravações do disco do MC Sombra, para a faixa "Mano eu vou ali comprar um chá - parte 2", que eles produziram. Da introdução que eu criei para ela, eu compus o resto num processo inverso do que rola no rap: ao invés de usar um sample, o sample virou música, por isso o nome "Fakechá".

Você encabeça e participa de vários projetos musicais (como o Metá Metá, MarginalS e Sambanzo) e transita pelo samba, jazz experimental, ritmos africanos e carnavalescos. É possivel definir um estilo Thiago França de se fazer música?

Acho que sim. Uma coisa que está presente em todos os projetos é que eu chamo pessoas para tocar e não instrumentos. Por exemplo, eu chamei o Allan pra tocar trombone na Space (Charanga) e só poderia ser ele. Não poderia ser qualquer trombonista, não quero simplesmente o som do instrumento. Levo muito em consideração a personalidade musical de cada artista e a combinação de todos para sonoridade final do projeto. Além disso, gosto das coisas mais espontâneas possíveis, assumo os erros e imperfeições das gravações numa boa, o mais importante para mim é captar o momento e ele sempre vai ser único. Gravamos o disco em um dia - as oito faixas - com pausa pra almoço e café. A gente poderia ter gastado um mês, gravado com click, afinado cada notinha, editado tudo pra soar "certinho". O que para mim é equivalente a uma modelo photoshopada de capa de revista. gosto da música como ela vem ao mundo, com estria e celulite, acho muito mais humano e pra mim faz muito sentido.

O Red Bull Station foi recentemente ocupado pelo PULSO, projeto que buscou fomentar discussões em torno da música independente no Brasil. Nos últimos anos essa cena vem ganhando mais espaço por aqui, na sua visão de artista independente quais os obstáculos já vencidos e quais os desafios que encontramos hoje?

Tenho pensado bastante em duas coisas: Primeiro é muito comum ouvir de jornalistas independentes coisas do tipo "como é estar afastado/ não ter espaço na mídia", ou seja, os próprios meios independentes geralmente não se veem como mídia, não se dão o devido valor, o que enfraquece o rolê. Provavelmente por conta disso, deixam de criar e solidificar uma linguagem própria, acho lamentável quando tentam copiar os modelos da mídia tradicional - é preciso esquecer esse formatos antigos. Em segundo, acho que a gente precisa fugir também dos rótulos, esquecer que isso um dia existiu, porque só serve para criar prateleira em loja. Uma coisa muito positiva do rolê pela europa com o Metá Metá é que a gente toca em todo tipo de festival, de música experimental a pop/rock. Em todo tipo de lugar, praça, parque e teatro. Lógico que existe uma curadoria, os line-ups não são feitos de junções aleatórias, mas a variedade é super saudável e poderia acontecer mais aqui.

Para ouvir as oito faixas de R.A.N é só baixar o disco gratuitamente no site do Thiago França. E para os fãs do vinil, dá para reservar uma cópia do LP por aqui!